Não foi dessa vez que ele revelou o método Mark Zuckerberg

A maratona de depoimentos de Mark Zuckerberg às autoridades norte-americanas ganhou um novo e desconfortável capítulo nesta quarta-feira (11). Depois de passar por audiência no Senado na terça-feira (10), foi a vez do CEO do Facebook dar explicações a uma bancada de mais de 50 parlamentares no Comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Deputados.

Zuckerberg teve novamente de justificar a questionamentos mais duros e discursos de congressistas menos amigáveis do que no dia anterior. No total, foram mais de dez horas de depoimentos que o presidente-executivo do Facebook precisou se dispor. A tentativa de aparar, mais uma vez, as arestas deixadas pelo escândalo envolvendo o uso indevido de dados de milhões de usuários pela consultoria Cambridge Analytica, jogou mais luz sobre como o Facebook opera e as perspectivas de Mark Zuckerberg para retomar a confiança do que ele gosta de chamar como “comunidade Facebook”.

A fala inicial do republicano Greg Walden, durante as declarações de abertura do depoimento de quarta-feira, resumem um pouco do sentimento enviesado que abalou as estruturas da rede social: “Enquanto o Facebook certamente cresceu, eu me preocupo se ele não amadureceu. Acho que é hora de perguntar se o Facebook pode ter crescido muito rápido e quebrado muitas coisas”, disse Walden.

Fato é que Zuckerberg foi fortemente pressionado na segunda audiência e muito se discutiu sobre monopólio, uma necessidade de regulação, censura prévia e comentários que trouxeram incômodo ao presidente-executivo daquela que se tornou uma das maiores companhias de tecnologia do mundo. Abaixo, trazemos um resumo do que rolou na segunda audiência. Você pode ler o nosso compilado sobre o primeiro depoimento de Zuckerberg.

Dados pessoais de Zuckerberg também foram acessados pela CA

Dentre os 87 milhões de usuários da rede social explorados pela Cambridge Analytica para direcionar propaganda política estava o próprio Zuckerberg. O executivo admitiu que suas informações pessoais também foram exploradas pela brecha.

A deputada Anna Eshoo foi quem direcionou a pergunta: “Seus dados estavam entre as informações vazadas para a CA?”. “Sim”, respondeu Zuckerberg depois de hesitar por um momento. Eshoo persistiu e levantou um dos principais pontos que Zuckerberg vinha tentando evitar. “O senhor estaria disposto a mudar o seu modelo de negócios para proteger a privacidade individual?”. O executivo, entretanto, se esquivou com uma resposta que, no fim, não dizia nada: “Eu não tenho certeza o que isso significa”.

Pressionado pelo deputado democrata Frank Pallone, por uma resposta “sim” ou “não” sobre se o Facebook se comprometeria a mudar suas configurações-padrão para minimizar a coleta de dados “na maior medida possível”, Zuckerberg respondeu que “esta é uma questão complexa que merece mais do que uma resposta de uma palavra”. Pallone chamou a resposta de “decepcionante”.

Auditoria dos apps pode levar anos

Após o caso da CA vir à tona, Zuckerberg prometeu que realizaria um pente fino em todos os apps de terceiros que abusam do uso de dados de usuários da rede social. A democrata Jan Schakowsky tentou tirar de Zuckerberg um prazo para o Facebook concluir a auditoria em questão. Zuckerberg disse que levaria meses. Ela insistiu e perguntou se tais meses poderiam se tornar anos. O executivo respondeu: “Eu espero que não”.

Antes de realizar mudanças na plataforma em 2014, o Facebook permitia que aplicativos de fora pudessem acessar dados de usuários e de seus amigos sem a permissão destes, como aconteceu no caso da Cambridge Analytica. Outro congressista perguntou a Zuckerberg quantos aplicativos teriam tido acesso a um volume extensivo de dados de seus usuários. O executivo disse que milhares de dezenas o fizeram e prometeu que uma equipe externa se comprometeria a realizar a revisão dos mesmos. Zuckerberg defendeu que será um processo minucioso e que sairá caro, mas que será feito “porque é necessário”.

Não seria a hora de regular o Facebook?

Desde o seu lançamento, a companhia vem se posicionando como uma empresa de tecnologia e não de mídia. Entretanto, devido a proporção que o Facebook tomou, tendo também se colocado enquanto distribuidor de conteúdo, muitos passaram a questionar a verdadeira personalidade da rede social. Porém, Mark Zuckerberg e companhia sabem muito bem que ao se definirem como empresa de mídia, o Facebook sofreria com forte regulação para tal. Exatamente, o ponto que o executivo tem tentado esquivar. O discurso sobre uma regulação do Facebook, entretanto, deu sinais de mudança nesta quarta-feira. Pressionado sob os holofotes, Zuckerberg disse que a regulação de uma indústria da rede social seria “inevitável”.

“A internet está crescendo em importância ao redor do mundo na vida das pessoas e eu penso que é inevitável que haja alguma regulação”, declarou. Cauteloso, Zuckerberg completou dizendo que a situação também era complexa: “Minha posição não é que não deva ter uma regulação, mas também penso que você precisa ter cuidado sobre a regulamentação que você cria”.

Diana DeGette, representante democrata, disse que o Congresso deveria considerar a imposição de “penalidades realmente robustas” para as empresas de mídia social que repetidamente comprometem as informações dos usuários: “Continuamos a ter esses abusos e essas violações de dados”, disse DeGette. “Mas, ao mesmo tempo, não parece que atividades futuras como essas serão evitadas”.

O mal estar sobre o fracasso do Facebook em proteger as informações de seus usuários foi levantado várias vezes com perguntas retóricas, do tipo: “Como usuários terão controle de seus dados se você não o tem?”. John Thune, da Dakota do Sul, disse que a empresa de Zuckerberg tinha uma história de 14 anos de desculpas por “decisões desaconselhadas” relacionadas à privacidade do usuário. “Como o pedido de desculpas de hoje é diferente?” Thune perguntou.

O Facebook tem partido?

Questionado por deputados republicanos sobre casos de posts de inclinação conservadora que foram removidos da plataforma após denúncias de usuários, Zuckerberg disse que o Facebook era neutro.

O executivo parece não ter convencido os representantes, tendo em vista que voltaram ao assunto em outras ocasiões. Zuckerberg negou que a plataforma esteja agindo como censor e informou que a empresa aplica ferramentas de inteligência artificial para identificar e banir, de forma automática, posts que possam ter discurso de ódio, extremistas ou ainda que tenham intenção de propagar mentiras. Entretanto, reconheceu que esse tipo de ação vai ter resultados no longo prazo.

E agora, Zuck?

A sabatina de Mark Zuckerberg no congresso norte-americano se encerrou, pelo menos por enquanto, nesta semana. O executivo foi convidado a prestar esclarecimentos no Parlamento britânico. Isso porque suspeita-se que dados de usuários do Facebook também foram usados para manipular a campanha pela saída do Brexit no Reino Unido, tendo em vista que a Cambridge Analytica também atuou nesta. Entretanto, Zuckerberg não deverá marcar sua presença em Londres diante parlamentares britânicos, quem irá em seu lugar, em princípio, será o CTO da companhia, Mike Schroepfer.

O Facebook anunciou uma série de mudanças e atualizações pelas quais a rede social passará nos próximos meses, incluindo atualizações nos termos de serviço e políticas de privacidade. Entretanto, levará tempo para a companhia de Zuckerberg retomar a confiança que perdeu com o escândalo. Mesmo assim, investidores do Facebook pareceram gostar da estreia de Zuckerberg no Capitólio norite-americano. As ações do Facebook terminaram na terça-feira com alta de 4,5%, e mais 1,5% no pregão de quarta-feira.

 

Fonte: idgnow.com.br

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